Tuesday, January 5, 2010

Romaria de estrelas





photo by Andrew Campbell

Há dias o seu corpo seguia impavidamente separado daquele outro corpo que constituía a morada da alma do seu tão amado. O coração enlaçado vibrava-lhe no peito alvo e tenro, este respirava coroado por negros cachos que, feito parreiras, decoravam-lhe o colo. Ali plantava-se o amor.

Mas no crescente da repetitiva sublimação, noite após dia, do descanso, improviso dos seus pesos e suores entretecidos no tempo, brotava no vente da morena uma fome, um desejo. Este chegava feito canção remota. Ecoava distante como cantoria de lavadeira à beira do rio. Era quase um lamento.  Era prece e romaria. 

Enquanto no céu as estrelas pairavam bordadas como velas em procissão, no quarto a ausência de sono teimava em acalentar o seu já tépido coração. Vagava de ponta a ponta no perímetro da sacada de madeira, o cheiro cálido de jasmim: entorpecia-lhe os sentidos. Era flor da Índia, era brinco de princesa, era cheiro de flor de laranjeira, era o caju maduro que do pé exalava na noite o sol represado daquele meio-dia. Num suspiro resignado, debruçou-se sobre o parapeito e foi no doce recline que ouviu o ruído imperceptível do botão da rosa que se abria em flor, abertura fecunda em direção à liberdade – destas anarquistas e irrestritas - da imaginação.

A brisa subia-lhe o corpo em fogo, do cóccix até o pescoço, a chama percorria cada palmo das suas costas e seu corpo, todo em flama, iluminava-se feito dança do Oriente. O abraço da noite, como o amado, percorria seu cheiro, confundia-se com as flores, desenlaçava a pequena camisola de cetim azul turquesa, estudava com toque macio suas ondas e corria sedento aferrando-lhe ora a negra melena ora os seios, crescentes, túmidos e fugitivos, inda contidos naquele cetim turquesa. Suas mãos guiavam-lhe a imaginação até a rosa – botão, a rosa em flor. A morena, em seu leito-jardim sorria com o rosto iluminado pelo cheiro e pelo toque, pelo vulto saboroso do amado distante, tão presente em sua recriação. Quebrava naquela noite a sua novena. Ao adormecer rezava devota ao seu anjo da guarda, para que guardasse sob as suas asas zelosas, o amado.

texto: Francesca Cricelli
revisão: Alex Dias 

Mar de pipas


Na laje, surfando o céu com olhos entregues, percebo que existem amores que escapam a qualquer entendimento.
A linha erguida e extensa entre o carretel e a pipa
é o mistério vendado do meu despertar, a cada manhã, para o amor que chamo de nosso. 

Saturday, December 26, 2009

kundalini



Certeira saliva sussurra silábica ressalta mordaz
minha voz amordaça, meus dentes marfins.

Teu casco serpente abre todos caminhos,
ébano que vem e rasteja a sua negrura sem pena

sobre estes pés cansados, pés que não te temem
posto que
 te vêem petróleo, bom augúrio sob o mar


as partes tuas feridas que jazem no meu pré-sal
eu junto e costuro e boto no chão pra tu caminhar. 

Wednesday, December 23, 2009

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"Seu caos me transforma corpo adentro"


photo by Luigi Ceccon


Côncavos e convexos
espelhados e paralelos,
tecem teias e conjecturas.

Idéias primaveris
desabrocham-lhe o ventre,
da prata do orvalho
faz ninho de invenções.

Crescem-lhes enredos,
histórias de varal e mil lençóis.
Ao tempo o vento da cadência,

estendidas vivências
alvejadas ao mar.
A Luz do parto doura-lhes o outono. 

Thursday, December 17, 2009

Café (ou bricadeira a gosto)




photo by Rubens Guerra
Há algo triste no azul dos teus olhos.
Há algo perdido e infinito neste azul dos teus olhos.
Há algo de azul
                      no triste dos teus olhos.

Há algo de teus olhos neste triste azul.
Há algo perdido
                     no infinito do azul dos teus olhos.

Há algo infinito no azul perdido dos teus olhos.
Há algo azul
no infinito triste
dos teus olhos
perdidos.

*



There’s something sad in that blue of your eyes.
There’s something lost and infinite in this blue of your eyes.
There’s something blue
                                       in the sadness of your eyes.
There’s something lost
                                    in the infinite of your eyes’ blue.
There’s something infinite in the lost blue of your eyes.
There’s something blue
in the sad infinite
of your lost
eyes