Há dias o seu corpo seguia impavidamente separado daquele outro corpo que constituía a morada da alma do seu tão amado. O coração enlaçado vibrava-lhe no peito alvo e tenro, este respirava coroado por negros cachos que, feito parreiras, decoravam-lhe o colo. Ali plantava-se o amor.
Mas no crescente da repetitiva sublimação, noite após dia, do descanso, improviso dos seus pesos e suores entretecidos no tempo, brotava no vente da morena uma fome, um desejo. Este chegava feito canção remota. Ecoava distante como cantoria de lavadeira à beira do rio. Era quase um lamento. Era prece e romaria.
Enquanto no céu as estrelas pairavam bordadas como velas em procissão, no quarto a ausência de sono teimava em acalentar o seu já tépido coração. Vagava de ponta a ponta no perímetro da sacada de madeira, o cheiro cálido de jasmim: entorpecia-lhe os sentidos. Era flor da Índia, era brinco de princesa, era cheiro de flor de laranjeira, era o caju maduro que do pé exalava na noite o sol represado daquele meio-dia. Num suspiro resignado, debruçou-se sobre o parapeito e foi no doce recline que ouviu o ruído imperceptível do botão da rosa que se abria em flor, abertura fecunda em direção à liberdade – destas anarquistas e irrestritas - da imaginação.
A brisa subia-lhe o corpo em fogo, do cóccix até o pescoço, a chama percorria cada palmo das suas costas e seu corpo, todo em flama, iluminava-se feito dança do Oriente. O abraço da noite, como o amado, percorria seu cheiro, confundia-se com as flores, desenlaçava a pequena camisola de cetim azul turquesa, estudava com toque macio suas ondas e corria sedento aferrando-lhe ora a negra melena ora os seios, crescentes, túmidos e fugitivos, inda contidos naquele cetim turquesa. Suas mãos guiavam-lhe a imaginação até a rosa – botão, a rosa em flor. A morena, em seu leito-jardim sorria com o rosto iluminado pelo cheiro e pelo toque, pelo vulto saboroso do amado distante, tão presente em sua recriação. Quebrava naquela noite a sua novena. Ao adormecer rezava devota ao seu anjo da guarda, para que guardasse sob as suas asas zelosas, o amado.
texto: Francesca Cricelli
revisão: Alex Dias



